"Papo de Responsa" é o nome de um dos projetos bacanas desenvolvidos pelo Grupo Cultural Afroreggae, do Rio de Janeiro. Uma dupla, formada sempre por um policial e uma pessoa que saiu do mundo dos crimes ou de uma situação de risco, visitam escolas, empresas e outros tantos lugares para contar a experiência de cada um, mostrar que mundos que normalmente se encontram em confrontos, podem conviver em harmonia e ajudar a construir soluções para nossos problemas.
Um dos participantes do projeto é também mediador de conflitos do Afroreggae,. O nome dele é Washington Rimas, conhecido por todos como Feijão. A origem do apelido eu não sei e, acreditem, esqueci de perguntar. Mas é sobre ele que eu decidi escrever.
Feijão nasceu na favela de Acari, no Rio. Foi criado pela mãe.O pai morreu quando ele ainda era garoto. Os avós tomavam conta dele enquanto a mãe passava o dia inteiro fora de casa, trabalhando como costureira. Ele mesmo conta que o papel de pai foi preenchido pelos traficantes do morro. Eram eles quem davam os presentes, educavam (à maneira deles). Tornaram-se suas referências, seus ídolos. Com apenas 12 anos, o Feijão já era um garoto de confiança do chefe do tráfico. Oito anos depois, já tinha se tornado o próprio chefe.
Quem conhece o Feijão pessoalmente, custa a acreditar que o homem de 30 e poucos anos, baixinho, simpático e carismático tem uma trajetória tão forte. Estive com ele nesta terça-feira, em Belo Horizonte. Ele veio participar do programa "Brasil das Gerais" e tivemos chance de conversar muito. Curiosa que sou, perguntei tudo. Queria conhecer esse universo, entender o que acontece, a lógica desse mundo que está "aqui do lado", mas que ainda é desconhecido pra mim- e por tantos nós.
Tomei coragem e perguntei se ele já matou alguém. Recebi a seguinte resposta: "eu não sou assassino, mas já dei muito tiro. Estava em uma guerra. Eu matava ou morria". Parece frio, escrevendo e lendo assim, mas é impossível se revoltar. Na verdade, seria até hipocrisia minha julgá-lo. Que direito tenho eu? E racionalmente, a lógica do mundo do tráfico é essa mesma. A gente precisa conhecer pra entender, não julgar.
Mas eu digo que a cada frase dele, a cada resposta que ele me dava, cada opinião, eu gostei mais dele. Eu continuei querendo entender... comparei a guerra do tráfico a guerras civis que outros países já viveram. Ele solta: mas na guerra civil, existe uma ideologia. No tráfico, não. Ele completa dizendo que o assistencialismo, aquela postura de defender e ajudar as comunidades, é uma postura dos antigos traficantes. Os meninos de hoje, que lideram as facções, não têm esse perfil. Lutam pelo poder. Só.
Feijão me contou também que sempre ajudou as pessoas, sempre se preocupou com o lado social. Achava que isso era apenas caridade. Diz que sempre teve o respeito da comunidade, mas assume que nunca foi santo, vendeu veneno pra muita gente e destruiu muitas famílias.
Hoje afirma que encontrou sua vocação- ajudar as pessoas, tirá-las do mundo do crime, apresentar outras possibilidades, novos caminhos. Feijão perdeu a maioria dos seus amigos nas guerras do tráfico ou em brigas com a polícia. Decidiu que não ia morrer como seus heróis. Resolveu sair do tráfico quando viu um álbum com milhares de santinhos (fotos de pessoas que faleceram). Conhecia, pelo menos, 300 daquelas pessoas. Optou por ficar vivo, ver os filhos crescerem. Ele brinca que é considerado "tio" na favela por dois motivos. Primeiro, porque cuida dos filhos dos amigos, os "filhos da favela". Segundo porque quase nenhum menino que se envolve no tráfico completa 30 anos de idade.
É muito difícil resumir aqui a conversa que tive com ele. Foram horas ouvindo e perguntando. Feijão se interessa por política, por questões sociais... sabe como é difícil lidar com a polícia. As pessoas dessas comunidades sentem raiva dos policiais porque são tratadas com truculência, sofrem retaliações, são vítimas da violência. Por outro lado, todo mundo quer ser protegido, sentir que seus direitos são respeitados, que existe liberdade de ir e vir e paz. A polícia pode ser forte aliada para essas mesmas pessoas conquistarem isso, se livrarem da prisão que o tráfico de drogas impõe a todos que vivem em comunidades onde ele está presente. Feijão também acredita que isso é possível e luta por isso. O Afroreggae, aliás, tem desenvolvido outros projetos em parceria com a polícia (tem até um aqui em Minas, o "Juventude e Polícia").
Feijão tem descoberto talentos nessa nova empreitada. É um dos atores do filme "5 vezes favela", de Cacá Diegues, que chega aos cinemas em breve. Foi elogiado pelo diretor, que descobriu um talento nato em Feijão. No fim do ano passado, passou por um supletivo e concluiu o segundo grau. Disse que o mais difícil foi a química! Agora quer ter aulas de inglês. Ele brinca que sabe dizer só "very good" e "thank you". Mas com ou sem inglês, tem levado sua história pra outros países. Fez palestras em Portugal e foi convidado a participar de um intercâmbio nos Estados Unidos. Percorreu várias cidades conhecendo museus, projetos e pessoas que podem apoiar o trabalho do Afroreggae. Visitou Nova York, um sonho antigo. E já começou a negociar uma parceria com o Consulado Americano no Brasil.
A vida de Feijão tinha tudo pra ser como a de outros traficantes. Tinha. Mas ele está vivo, trabalhando pra combater as drogas, o crime, construindo um novo modelo de ídolo pros meninos que vivem nas comunidades. Os sonhos e a esperança do Washington não têm limite. Ele prefere acreditar que é possível, confiar que as coisas podem mudar. Não que isso seja fácil. Mas entre ser ou não otimista, ele prova que a primeira pode ser uma boa- e sensata-opção.
Um dos participantes do projeto é também mediador de conflitos do Afroreggae,. O nome dele é Washington Rimas, conhecido por todos como Feijão. A origem do apelido eu não sei e, acreditem, esqueci de perguntar. Mas é sobre ele que eu decidi escrever.
Feijão nasceu na favela de Acari, no Rio. Foi criado pela mãe.O pai morreu quando ele ainda era garoto. Os avós tomavam conta dele enquanto a mãe passava o dia inteiro fora de casa, trabalhando como costureira. Ele mesmo conta que o papel de pai foi preenchido pelos traficantes do morro. Eram eles quem davam os presentes, educavam (à maneira deles). Tornaram-se suas referências, seus ídolos. Com apenas 12 anos, o Feijão já era um garoto de confiança do chefe do tráfico. Oito anos depois, já tinha se tornado o próprio chefe.
Quem conhece o Feijão pessoalmente, custa a acreditar que o homem de 30 e poucos anos, baixinho, simpático e carismático tem uma trajetória tão forte. Estive com ele nesta terça-feira, em Belo Horizonte. Ele veio participar do programa "Brasil das Gerais" e tivemos chance de conversar muito. Curiosa que sou, perguntei tudo. Queria conhecer esse universo, entender o que acontece, a lógica desse mundo que está "aqui do lado", mas que ainda é desconhecido pra mim- e por tantos nós.
Tomei coragem e perguntei se ele já matou alguém. Recebi a seguinte resposta: "eu não sou assassino, mas já dei muito tiro. Estava em uma guerra. Eu matava ou morria". Parece frio, escrevendo e lendo assim, mas é impossível se revoltar. Na verdade, seria até hipocrisia minha julgá-lo. Que direito tenho eu? E racionalmente, a lógica do mundo do tráfico é essa mesma. A gente precisa conhecer pra entender, não julgar.
Mas eu digo que a cada frase dele, a cada resposta que ele me dava, cada opinião, eu gostei mais dele. Eu continuei querendo entender... comparei a guerra do tráfico a guerras civis que outros países já viveram. Ele solta: mas na guerra civil, existe uma ideologia. No tráfico, não. Ele completa dizendo que o assistencialismo, aquela postura de defender e ajudar as comunidades, é uma postura dos antigos traficantes. Os meninos de hoje, que lideram as facções, não têm esse perfil. Lutam pelo poder. Só.
Feijão me contou também que sempre ajudou as pessoas, sempre se preocupou com o lado social. Achava que isso era apenas caridade. Diz que sempre teve o respeito da comunidade, mas assume que nunca foi santo, vendeu veneno pra muita gente e destruiu muitas famílias.
Hoje afirma que encontrou sua vocação- ajudar as pessoas, tirá-las do mundo do crime, apresentar outras possibilidades, novos caminhos. Feijão perdeu a maioria dos seus amigos nas guerras do tráfico ou em brigas com a polícia. Decidiu que não ia morrer como seus heróis. Resolveu sair do tráfico quando viu um álbum com milhares de santinhos (fotos de pessoas que faleceram). Conhecia, pelo menos, 300 daquelas pessoas. Optou por ficar vivo, ver os filhos crescerem. Ele brinca que é considerado "tio" na favela por dois motivos. Primeiro, porque cuida dos filhos dos amigos, os "filhos da favela". Segundo porque quase nenhum menino que se envolve no tráfico completa 30 anos de idade.
É muito difícil resumir aqui a conversa que tive com ele. Foram horas ouvindo e perguntando. Feijão se interessa por política, por questões sociais... sabe como é difícil lidar com a polícia. As pessoas dessas comunidades sentem raiva dos policiais porque são tratadas com truculência, sofrem retaliações, são vítimas da violência. Por outro lado, todo mundo quer ser protegido, sentir que seus direitos são respeitados, que existe liberdade de ir e vir e paz. A polícia pode ser forte aliada para essas mesmas pessoas conquistarem isso, se livrarem da prisão que o tráfico de drogas impõe a todos que vivem em comunidades onde ele está presente. Feijão também acredita que isso é possível e luta por isso. O Afroreggae, aliás, tem desenvolvido outros projetos em parceria com a polícia (tem até um aqui em Minas, o "Juventude e Polícia").
Feijão tem descoberto talentos nessa nova empreitada. É um dos atores do filme "5 vezes favela", de Cacá Diegues, que chega aos cinemas em breve. Foi elogiado pelo diretor, que descobriu um talento nato em Feijão. No fim do ano passado, passou por um supletivo e concluiu o segundo grau. Disse que o mais difícil foi a química! Agora quer ter aulas de inglês. Ele brinca que sabe dizer só "very good" e "thank you". Mas com ou sem inglês, tem levado sua história pra outros países. Fez palestras em Portugal e foi convidado a participar de um intercâmbio nos Estados Unidos. Percorreu várias cidades conhecendo museus, projetos e pessoas que podem apoiar o trabalho do Afroreggae. Visitou Nova York, um sonho antigo. E já começou a negociar uma parceria com o Consulado Americano no Brasil.
A vida de Feijão tinha tudo pra ser como a de outros traficantes. Tinha. Mas ele está vivo, trabalhando pra combater as drogas, o crime, construindo um novo modelo de ídolo pros meninos que vivem nas comunidades. Os sonhos e a esperança do Washington não têm limite. Ele prefere acreditar que é possível, confiar que as coisas podem mudar. Não que isso seja fácil. Mas entre ser ou não otimista, ele prova que a primeira pode ser uma boa- e sensata-opção.
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