boas-vindas às avessas

Li agora no site do uol que alunos da faculdade de direito da Universidade Federal do Paraná criaram uma cartilha para os calouros, um verdadeiro manual de sobrevivência. O nome do livreto é "Como cagar na cabeça de humanos". Foi criado pelo Partido Democrático Universitário.

Só que a brincadeira criou polêmica. Parece que um dos textos traz algumas dicas para se dar bem na vida sentimental. E aí, brincando com a ideia de artigos e leis, os autores criaram argumentos para o conquistador não sair com a "uma mão na frente e a outra atrás". Um exemplo, retirado da reportagem da Folha: "... se uma garota disser "vamos com calma", o aluno deve dizer "não pode o devedor obrigar o credor a receber parte em uma prestação e parte em outra", segundo um trecho do artigo 252. E conclui: "Ela vai ter que dar tudo de uma vez".".

Algumas reações, claro, foram de indignação contra o machismo. Alguns chegaram a argumentar que o manual estaria incentivando o estupro. Os alunos, autores da obra-prima, disseram que é um absurdo dizer isso, que teria sido só uma brincadeira. Isso foi o que eu li.

A minha questão, na verdade, não é nem o machismo, nem a brincadeira. Eu só lamento. Porque essa cartilha saiu do dinheiro dos estudantes, provavelmente. Porque o materil intelectual foi produzido por alunos universitários. Dicas de onde beber, de argumentos pra converter não em sim... sei lá. Acho que brincadeira é brincadeira e cada um faz graça do que acha mais interessante, importante. O triste é eles acharam isso o mais importante. Isso ser o foco da brincadeira. Seria lega pensar que as brincadeiras de um Partido Universitário fossem mais do menos e não o contrário. Esse tipo de piada a gente encontra em qualquer buteco de esquina. Na verdade, o que eu to querendo dizer é que é triste pensar que a gente fica reproduzindo nas universidades esse estilo de comportamento de filme norte-americano em que a college, ou a university, é o espaço para festa, bebida, sexo e bullying. E o espaço para debate, reflexão, troca de informação? Vai depende da figura de um professor para existir? Será que os alunos, por si só, não podem fazer isso? Seria legal pensar o espaço de uma universidade para brincadeiras também mais elaboradas, piadas menos óbvias e menos agressivas. Fiquei pensando também nessa questão da estreia, das boas vindas, de receber o novo. Poxa, eu trabalho em televisão e toda vez que algum programa vai estrear, que algum apresentador novo vai surgir, a gente quebra a cabeça pra encotnrar o assunto, pra definir o formato, pra dar as boas vindas, chamar a atenção pro que a gente quer que seja bom. E aí nos trotes, nos manuais de sobrevivência pra calouro, o que se vê é o oposto.

E agora eu vou ter que falar do machismo. Porque parece assunto chato, antigo, superado. Parece também exagero. Mas enquanto um sexo trata o outro com algum olhar agressivo, existe a violência contra o outro. E isso não é besteira. Até quando homens e mulheres vão duelar, promover disputas, armadilhas e impedimentos para se relacionarem bem?

Também não considero que questionar essa brincadeira seja censura. Pra ser sincera, não entendo essa manifestação geral que existe agora de que tudo que decide discutir, criticar ou rebater piada sem graça tenha virado censura. Não é pra ir pra frente? Não é pra caminhar pra um lugar melhor? A gente só faz isso com mudança. E mudança também na forma de fazer e ver graça, na forma de tratar o outro, de falar sobre ele...

Eu sei que eu não acho graça desse tipo de piada. Mas já passei da fase de ficar com raiva também, de me sentir ofendida. Eu lamento, e muito, porque acredito que isso reflete em
pontos ainda mais distantes do nosso dia a dia. Quem sabe esse pessoal descobre isso um dia?

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