sobre "Habemus Papam"

Fui assistir ao filme "Habemus Papam"acreditando estar indo assistir a uma comédia, com temática interessante, diferente. A crise existencial do homem de Deus que acaba de ser eleito Papa. A verdade do filme me surpreendeu. O senhor de rosto simpático suaviza um pouco o drama que o personagem dele vive. A vida abriu pra ele uma porta enorme, cobiçada por tantos, e diante dela, ele descobre que o que existe do outro lado é fascinante, mas pode não o ser pra você.

Vontade de fugir, de deixar as coisas como estão, de deixar os outros resolverem o problema que o seu compromisso com a sua essência criou. Nenhuma saída é suficiente a não ser a de ser honesto. Ter a coragem de encarar o outro e demonstrar o respeito a esse outro. Nossa, quantas decisões são adiadas ou nunca tomadas porque não conseguimos encarar o outro olhar e dizer, verbalizar o que nós já decidimos intimamente? Sem desculpas, sem atalhos, sem criar situações que invertam a realidade- ir até o outro, nos expor a ele, estar aberto à reação que vem em seguida e que é justamente o que nos dá mais medo, desconforto. Lidar com a frustração nossa, e a que causamos para além de nós mesmos. Nos livrar do medo do julgamento e entender que cabe ao outro elaborar a reação que ele vai ter, a nós nos cabe estar em paz conosco.

De que valor nos reforçamos para abrir mão de algo que nos é caro, embora saibamos e precisamos assumir que por mais caro que aquilo ou aquela pessoa seja para nós, já não faz parte ou nunca fez da nossa vida? Ter profunda admiração, encantamento por algo, sem perder de vista que aquilo simplesmente "não é pra gente". Eu não dou conta de todos os meus desejos, eu não dou conta de todos os meus sonhos. Manter-se ingênuo ao acreditar que estamos prontos, preparados e que bancamos tudo isso que vive no abstrato pode ser uma alternativa para se manter vivo ou para não ter que se dar conta de que por pior que a sua vida seja hoje, foi a vida que você escolheu ou, simplesmente, foi o que você deu conta de fazer. Podia ter feito muito mais, arriscado mais, sonhado mais, ousado mais, tantas coisas mais... podia, mas não fez, não arriscou, não sonhou, não ousou e ponto final. Escolheu, em algum momento, fazer o de menos e não há menos nisso, há apenas o limite de cada um.

Nada me impede de sonhar, de querer me desafiar. Mas eu preciso saber até onde consigo ir, não pra sonhar menos, mas pra fazer as pazes com a minha linha de chegada. Para poder transbordar naquilo que decidir fazer, para mergulhar nos espaços que decidir preencher, pra dar sentido às minhas escolhas e reconhecê-las como legítimas, já que, uma vez tomadas em sintonia com a minha verdade, elas refletem o que há de mais honesto em mim.

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