Sinto saudades do tempo em que colocava os pés pra fora de casa e me sentia tão segura quanto lá dentro. De quando os vizinhos se conheciam, se cumprimentavam e se presenteavam com pratinhos cheios de doces que tinham acabado de fazer. De atravessar a rua e tocar a campainha, chamando os amigos pra brincar.
Foi mais do que privilegiada a infância que tive. Nasci em uma cidade de noventa mil habitantes, no sul de Minas Gerais. Cresci nas ruas, nos quintais, na praça; subi e desci morro, fui pra aula a pé, brinquei com árvores que caíram depois da tempestade, construí casas de papelão. Não devia ter dez anos quando meu pai ensinou a mim e ao meu irmão a voltar sozinhos pra casa. Como encaixar isso nos dias de hoje?
Uma época em que o compartilhar estava em primeiro plano. Em que a gente se unia até pra driblar castigos. Como no dia em que meu irmão e eu não podíamos sair de casa e passamos uma tarde inteira jogando vôlei com dois amigos: nós na garagem e eles, do outro lado do portão.
Havia uma sensação de bem estar que nos ajudava a transitar com mais leveza. Eu caminhava entre rostos que não ameaçavam, entre vozes que não agrediam. Nunca foi um mar de rosas, mas eu encontrava, ali, o que me parece ser as bases do convívio social.
Acho que éramos educados pra isso: conviver. Crescíamos inseridos em todos os desafios que essa proposta carrega, mas dispostos a fazer dar certo. Sabe aquela história de "um mundo melhor para os nosso filhos"e de "filhos melhores para o mundo"? Acho que era tudo isso junto. Que cada um desse o melhor de si, para poder usufruir o melhor do todo.
Sei que ainda carrego esses valores, ainda que me perca um pouco no ritmo mais acelerado e impessoal da cidade onde vivo. Tenho certeza de que eles vivem em mim pelas reações que tenho a cada "bom-dia"não retribuído, a cada pessoa que passa por mim e acha mais fácil me empurrar a me pedir licença.
Não há uma só vez em que viva isso e não sinta falta do que tive lá atrás.
Acredito em dias mais suaves, em tratos mais gentis. Das poucas certezas que cultivo hoje, existe a de que a base pra isso está em um ser humano que receba e aprenda a amar, a ouvir e a enxergar o outro, a olhar pra dentro e a julgar menos o de fora.
Não há mesmo milagre pra curar uma sociedade adoecida. Muitos médicos dizem que é preciso atacar os sintomas para, então, tratar as causas. Mas se recordamos de todas as vezes em que adoecemos, vamos lembrar também que não é só pelo remédio que clama um paciente. Quantas vezes o corpo baixa a guarda para darmos atenção ao que tentamos silenciar?
De qualquer forma, termino com uma história que me fez mais feliz no fim de semana. Do Recife, o exemplo de mães que fizeram os filhos devolver eletrodomésticos roubados durante a greve da polícia.
Um bando de marmanjo, de cabeça baixa, aprendendo - veja só - a pedir desculpa.
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