A crônica que eu não escrevi.


A marcação no começo da página fica piscando na tela, e eu custo a encontrar as palavras pra dar início ao texto.  O barulho do liquidificador ligado no apartamento vizinho invade meu raciocínio. Mais uma desculpa pra interromper a escrita, fechar a tela e me distrair com outra coisa qualquer. Digito o mais rápido possível, com medo de perder o ritmo, das palavras escaparem dos meus dedos. Fica tudo mais fácil quando elas já estão ali, na ponta deles, prontas pra sujar a tela em branco. E por falar em branco, seria até mais fácil se fosse esse o problema. Como é que tantas perguntas juntas não conseguem produzir nem um parágrafo que seja?

Às vezes penso que perdi o foco, ou me perdi.

Coloco uma música pra servir de trilha, pra ver se ganho inspiração. Mas logo meus pés começam a balançar e o pequeno repertório que já tinha ensaiado passa a sussurrar tão baixo que mal consigo ouvi-lo. Melhor o silêncio.

Liguei o notebook decidida a falar do tempo que se gasta e do que se ganha, dos planejamentos que tenho abandonado para ganhar tempo ao lado de alguém. De como as presenças se tornaram importantes; as palavras, acolhedoras; da falta que alguns olhares fazem... e de como me descobri carente do privilégio de alguns encontros.  Vivi uma cascata deles no último mês. E talvez por isso tenha ficado tão muda das letras. Falei por abraços, por risadas, pelo tom de voz- muito mais do que pelo dito de fato.

Passo mais 20 minutos tentando coordenar alguns pensamentos. Lembro da frase que li ontem, da escritora moçambiquenha Gisela Gracias Ramos Rosa. "Há entre mim e o outro, a linha de um lugar comum.".  Volta e meia me recordo dessa citação e tento refletir a respeito dela. Mas tudo me parece simplório e ingênuo.

Paro pra comer alguma coisa e não consigo me desligar do texto que abandonei pela metade. Lembro da conversa com uma grande amiga e do que ela me disse a respeito das testemunhas que cultivamos ao longo da vida. Pessoas queridas - e cada vez em número menor- que compartilham as nossas lembranças e os afetos por elas.  Por algum motivo, os laços, os encontros e o tempo raro em que eles acontecem voltam a me rondar.

Leio e releio a colcha de retalhos que se tornou meu texto e percebo o quanto ele dialoga com uma metáfora que também deixei inacabada - a de enxergar pessoas como quebra-cabeças. Algumas, a meu ver,  parecem vir com o desenho pra seguir de modelo e rapidamente se encaixam. Já eu, também a meu ver, faço parte do grupo que carrega alguns blocos vazios, com as peça soltas ao redor e que precisam ser minuciosamente analisadas antes de ocupar qualquer espaço.  Acho que muito dessa sensação diz respeito ao hábito de me vestir de perguntas e sair por aí, olhando em volta, pra ligar os pontos.

Respiro aliviada. Pode ser que o momento peça, apenas, um breve intervalo.










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